«Bancos vão ter menos balcões, mais automação, mais inteligência artificial e menos gente»

Os bancos enfrentam grandes desafios. Quem o diz é António Nogueira Leite, economista e ex- vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos.

O também ex-secretário de Estado do Tesouro e Finanças considera que «a banca enfrenta um desafio de rendibilidade, novos desafios regulatórios com impacto na sua performance, gestão de riscos e a ameaça da concorrência de players originalmente não bancários».

Nogueira Leite não está optimista, mas acredita que, tal como no passado, o sector vai sobreviver ao tsunami tecnológico. «Vejo os bancos a transformarem-se substancialmente, e é claro que os que não se adaptarem, acabarão», admite o economista, sublinhando que considera que o sector bancário será dominado por canais digitais. Já do lado do consumidor, Nogueira Leite não tem dúvidas de que «o digital é uma barreira para os mais velhos e para os menos alfabetizados».

Como é que a banca tradicional se está a adaptar à nova revolução tecnológica que está em marcha? Quais são os principais pilares estratégicos de sobrevivência indispensáveis?

A banca tradicional enfrenta hoje enormes desafios, se bem que a sua saúde não é uniformemente distribuída entre os principais blocos. No caso europeu, entre os diferentes países, a verdade é que enfrenta um desafio de rendibilidade, novos desafios regulatórios com impacto na sua performance, gestão de riscos e a ameaça da concorrência de players originalmente não bancários (a Google, a Amazon, e já se fala da Apple, em parceria com a Goldman Sachs, nos pagamentos), onde se incluem as genericamente chamadas Fintech. A digitalização crescente da actividade económica e da vida em geral trouxe novos agentes ao mercado, muito mais ágeis, sem os custos da legacy, que são ainda muito importantes na Europa e que vão disputar os clientes habituais da banca.

A concorrência de empresas como a Revolut, a Google e a Amazon, entre muitas outras Fintech, é uma verdadeira ameaça que a prazo pode levar à extinção de bancos tradicionais?

Os bancos vão ter de evoluir. Têm algumas vantagens, como o longo relacionamento com clientes, mas são entidades pesadas, com infra-estrutura física e recursos humanos em excesso face ao que se prevê que possa vir a ser o seu papel no futuro. Não são apenas as Fintech que os ameaçam: nalguns países europeus e, mais aprofundadamente nos Estados Unidos e no Canadá, uma parte substancial do crédito já não é concedida pela banca comercial, mas sim por fundos especializados, a maior parte dos quais funcionando com financiamento de liquidity providers institucionais (como fundos de pensões, fundos de fundos, fundações e trusts, entre outros) e da própria banca. Não vejo no horizonte de previsão que tenho os bancos a acabar, mas vejo-os a transformarem-se substancialmente. Claro que os que não se adaptarem acabarão.

A nova estratégia bancária vai obrigar a uma nova onda de fusões e aquisições em Portugal e na Europa?

Penso que há lugar para transformação e parte dessa transformação vai operar-se organicamente em cada instituição, sendo que o resto virá por fusões e aquisições. Por outro lado, o grau de concentração a que se assistirá também terá que ver com as políticas de concorrência e supervisão. Aparentemente, na União Europeia há uma preferência por supervisionar poucos grandes bancos, em vez de muitos pequenos bancos. Por um lado, facilita, mas, por outro, aumenta o risco sistémico de cada unidade supervisionada, o que poderá vir a ser um problema.

No futuro haverá poucos bancos tradicionais e muitas entidades tecnológicas financeiras?

Como se pode deduzir do que já disse, vamos ter entidades diferentes das actuais, com predominância crescente dos canais digitais. Os bancos vão ter menos balcões, mais automação, mais inteligência artificial, menos gente e, por outro lado, muita da actividade das Fintech, que vão ter de preparar-se para interagir com reguladores e supervisores. Como noutras áreas da economia, a captação da poupança, as transacções financeiras e o financiamento de pessoas e empresas vão mudar muito nos próximos dez ou vinte anos.

A legislação e os órgãos de supervisão têm estado à altura do novo desafio que o sector financeiro enfrenta?

Tem havido progressos. Nalgumas áreas, talvez, até de modo demasiado intrusivo. Todos os agentes, incluindo supervisores, aprenderam muito com a crise e têm tomado medidas para não cair nos mesmos erros. Por outro lado, têm de entender que o mundo está a mudar aceleradamente e a preparar-se para isso.

Os consumidores portugueses estão preparados para aderir em força à banca digital, ou o risco de segurança e transparência são ainda uma grande barreira?

O digital é uma barreira para os mais velhos e para os menos alfabetizados. Como as outras sociedades, Portugal tem-se digitalizado e vai manter-se em linha com o que se passa na União Europeia. Hoje ainda temos países bem mais ricos com menor uso de canais digitais, mas será um desafio permanente.

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