BdP: Recessão entre 3,7% e 5,7% este ano, “choque deverá atingir o pico no segundo trimestre”

As projeções para o crescimento do PIB em 2020 traduzem revisões significativas em baixa face ao projetado em dezembro, onde o BdP apontava para um aumento da atividade económica de 1,7% este ano e de 1,6% nos seguintes.

“As perspetivas para a economia portuguesa deterioraram-se abrupta e significativamente em resultado do impacto da pandemia Covid-19. A pandemia corresponde a um choque económico adverso com efeitos muito significativos e potencialmente prolongados no tempo em termos do bem-estar dos cidadãos e da atividade das empresas”, considera o Banco de Portugal no Boletim Económico de março de 2020, publicado esta quinta-feira.

Neste boletim, que atualiza as projeções para a economia portuguesa relativas ao período 2020-2022, o BdP elaborou dois cenários – um cenário base e um adverso – com hipóteses diferentes sobre os efeitos económicos da pandemia a nível nacional e mundial.

As projeções procuram ter em consideração o potencial impacto das políticas adotadas pelas autoridades nacionais e europeias em face do choque.

Ambos os cenários contemplam uma recessão da economia portuguesa em 2020.

“O choque deverá atingir o seu pico no segundo trimestre deste ano, prevendo-se uma normalização gradual a partir do segundo semestre. O impacto da crise pandémica tem uma natureza muito persistente, associada à destruição de capacidade produtiva instalada, não se observando um retorno do nível do PIB à trajetória projetada no boletim de dezembro de 2019”. detalha o regulador.

O perfil da atividade económica em Portugal acompanha os desenvolvimentos a nível global e, em particular, na área do euro.

Nos dois cenários apresentados, as projeções para o crescimento do produto interno bruto (PIB) em 2020 traduzem revisões significativas em baixa face ao projetado no Boletim Económico de dezembro, onde se apontava para um aumento da atividade económica de 1,7% este ano e de 1,6% nos seguintes.

Cenário base

Neste cenário estima uma redução de 3,7% do PIB real em 2020, assumindo que o impacto económico da pandemia é relativamente limitado, o que decorre, em parte, da hipótese de que as medidas adotadas pelas autoridades económicas serem bem-sucedidas na contenção dos danos sobre a economia.

A economia portuguesa apresenta um crescimento ainda fraco em 2021 (0,7%), recuperando mais notoriamente em 2022 (3,1%).

Ao nível do mercado de trabalho, projeta uma queda do emprego de 3,5% e uma subida da taxa de desemprego para 10,1% em 2020. Nos anos seguintes, a taxa de desemprego reduz-se gradualmente, para 9,5% e 8,0%, respetivamente, em 2021 e 2022.

O consumo privado reduzirá em 2,8% em 2020, após ter aumentado 2,3% em 2019. A evolução do consumo reflete, por um lado, um aumento da poupança das famílias num ambiente de grande incerteza e, por outro, a ligeira queda do rendimento disponível real. Esta queda é mitigada pelas medidas orçamentais anunciadas, antecipando um aumento significativo das transferências públicas para as famílias em 2020. Para o consumo público, estima um crescimento de 2,1% em 2020, superior ao de 2019 (0,8%), em resultado de um aumento significativo da despesa em saúde suportada pelas administrações públicas.

A formação bruta de capital fixo (FBCF) diminui 10,8% em 2020, devido à forte redução do investimento empresarial e, em menor magnitude, do investimento residencial. As despesas de investimento das empresas deverão ser fortemente condicionadas pela elevada incerteza quanto à magnitude e à duração do surto e ao seu impacto sobre as perspetivas de procura interna e externa.

As exportações de bens e serviços reduzem marcadamente em 2020, diminuindo 12,1%, após uma subida de 3,7% em 2019. Esta evolução reflete a redução da procura externa, associada ao enfraquecimento da atividade económica mundial. As exportações de serviços, em particular de turismo e transportes, são fortemente afetadas pelas limitações à movimentação de pessoas e deverão registar uma queda acentuada. As importações reais reduzem-se também de forma significativa em 2020 (menos 11,9%, após um aumento de 5,2% no ano anterior), refletindo a contração da procura global.

Os saldos da balança corrente e de capital mantêm excedentes ao longo do horizonte de projeção, de 2,0% este ano, 2,4% em 2021 e 1,3% em 2022, beneficiando da diminuição do preço do petróleo. No contexto de um choque que incide sobre a procura e a oferta agregadas e que envolve alterações significativas de preços relativos, assume-se que prevalece algum efeito descendente sobre os preços, Assim, a taxa de inflação permanece em níveis baixos ao longo de todo o horizonte de projeção: 0,2% em 2020, 0,7% em 2021 e 1,1% no último ano do horizonte.

Cenário adverso

No cenário adverso, assume o BdP que o impacto económico da pandemia “é mais significativo devido à paralisação mais prolongada da atividade económica em vários países, conduzindo a maior destruição de capital e perda de emprego”. Este cenário considera também uma maior incerteza e níveis de turbulência mais significativos nos mercados financeiros. Nestas condições, a economia portuguesa regista uma recessão mais profunda, com o PIB a reduzir-se 5,7% em 2020. Nos anos seguintes, a atividade económica recupera, prevendo-se um crescimento de 1,4% em 2021 e de 3,4% em 2022.

A taxa de desemprego aumenta mais marcadamente em 2020, para 11,7%, e apesar da redução esperada nos anos seguintes mantém-se em níveis superiores aos do cenário base (10,7% e 8,3%, respetivamente, em 2021 e 2022).

O consumo privado diminurá 4,8% em 2020. As famílias reduzem mais significativamente as despesas de consumo num cenário de maior incerteza, caracterizado também por uma maior queda do emprego, níveis mais elevados da taxa de desemprego e condições financeiras mais desfavoráveis.

Este cenário incorpora uma queda de 14,9% da FBCF em 2020. O impacto do choque sobre o investimento empresarial é reforçado pela maior incerteza, pelo abrandamento mais significativo da procura global e pela deterioração das condições de financiamento.

Num cenário de recessão global e de colapso do comércio mundial, a procura externa dirigida à economia portuguesa reduz-se mais significativamente e determina uma queda de cerca de 19,1% das exportações de bens e serviços em 2020. Nos anos seguintes, este agregado deverá recuperar em linha com o ciclo externo. As importações apresentam uma redução de 18,7% em 2020 e uma recuperação em 2021-22.

Os saldos da balança corrente e de capital mantêm excedentes próximos dos projetados no anterior cenário ao longo do horizonte de projeção (2,0%, 2,9% e 1,4%, respetivamente, em 2020, 2021 e 2022). A taxa de inflação permanece em níveis ainda mais baixos ao longo de todo o período, prevendo-se que se situe em -0,1% este ano, 0,5% em 2021 e 0,7% em 2022.

O BdP, nesta sua análise, não deixa de apontar que a economia portuguesa apresenta “vulnerabilidades específicas face a um choque desta natureza”.

“A importância do setor do turismo na atividade económica implica uma elevada exposição à redução esperada da procura global deste tipo de serviços, que será muito significativa. Um choque económico desta dimensão coloca também dificuldades acrescidas ao tecido empresarial, dominado por empresas de pequena dimensão e com situação financeira relativamente frágil. Finalmente, a elevada percentagem de famílias perto ou abaixo do limiar de pobreza em Portugal implica uma reduzida margem de absorção do choque perspetivado sobre o rendimento”, conclui o regulador.

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