Bolhas do boom ao crash

Bolha do imobiliário, bolha da Bitcoin, bolha das dotcom… O termo bolha entrou definitivamente no léxico da Economia e dos mercados e está até cada vez mais presente, à medida que as ameaças de bolha se vão tornando mais frequentes. Como uma bolha real, a dos mercados e da Economia não é mais do que isso mesmo: uma bolha, ou seja, um balão insuflado que, quando rebenta, desaparece no ar.

por Renato Santos

Uma década depois de rebentar uma das maiores bolhas especulativas da história, conhecida como a crise do subprime, o mundo financeiro está de novo em alerta vermelho. Quem o diz são economistas como Alan Greenspan, Nouriel Roubini ou Vítor Bento. Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal dos EUA (conhecido pela expressão “exuberância irracional”, que usou há 21 anos para alertar para uma possível bolha nos activos tecnológicos), focado no mercado norte-americano e nas políticas assumidas por Donald Trump, alertou, em recente entrevista à Bloomberg, que há duas bolhas prestes a rebentar, uma no mercado das acções e outra no das obrigações soberanas. «A dívida tem vindo a crescer muito significativamente e nós não estamos a prestar a devida atenção», alerta Greenspan.

Roubini, conhecido como o “profeta da desgraça”, por ter antecipado em 2005 que a bolha especulativa imobiliária norte-americana poderia levar a uma crise económica, o que aconteceu em 2008, afirmou, em Fevereiro, em artigo de opinião e entrevista à Bloomberg, que a criptomoeda é «a maior bolha na história da humanidade» e está “finalmente” a estoirar. Nouriel Roubini explica que não é só a Bitcoin, pois existem cerca de 1300 criptomoedas e a «maioria é ainda pior», estas são «esquemas de pirâmide financeira» [Ponzi], que funcionam num sistema tecnológico, o blockchain, que é «uma fraude».

Já o economista Vítor Bento, também nos últimos artigos de opinião publicados no DN, alerta para os sinais que apontam para «uma nova bolha financeira, cujo rebentamento poderia dar origem a uma nova crise». Esses sinais, frisa Vítor Bento, constam mesmo do relatório de estabilidade financeira do Fundo Monetário Internacional de Outubro de 2017: «Estava bem recheado de avisos e cautelas sobre a situação vivida nos mercados financeiros.» O economista sublinha, no entanto, que «os sinais de uma bolha financeira podem durar muito tempo até que ela rebente e provoque uma crise, pois nunca se sabe até onde estica o elástico das condições financeiras, até rebentar».

Mas afinal o que é uma bolha?
Bolha económica, bolha financeira ou bolha especulativa são todos termos usados no meio económico e que na prática significa que o valor de um bem ou serviço assume patamares irreais, baseados em expectativas ou rumores, e não em factos concretos. E apesar da consciência de que o valor praticado fura todos os padrões de avaliação, o acreditar de que essa valorização vai perdurar faz com que continuem a existir compradores. Este é o ar que alimenta a bolha, sempre sustentado por um sentimento de grande euforia, onde a expectativa é a de que o céu é o limite e a especulação é a palavra de ordem, tudo em nome do lucro que todos querem que seja cada vez maior.

«As bolhas surgem especialmente em períodos de inovação. Podem ser inovações tecnológicas, como as ferrovias ou a internet, ou financeiras», diz Markus K. Brunnermeier, professor de Economia da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e co-autor do livro “Bubbles and Central Banks: Historical Perspectives” [Bolhas e Bancos Centrais: Perspectivas Históricas].

Já Fernando Trías de Bes, economista espanhol, escritor e professor do ESADE, considera que «em todas as bolhas especulativas verifica-se uma atitude semelhante, uma espécie de hipnotismo ou adormecimento, em que trabalhar não faz sentido. Parece mesmo ter sido descoberta a pedra filosofal da riqueza ilimitada e em que a opulência e o crescimento sem base real são aparentemente possíveis».

A bolha pode mesmo equiparar-se a uma aventura em tudo semelhante a um jogo de azar, em que poucos ganham muito, enquanto a maioria sofre perdas gigantes. E a bolha enche, enche, enche e a certa altura todos sabem que o estouro pode acontecer a qualquer momento, mas ninguém acredita. E quando a euforia cede à pressão do pânico, aí a bolha começa a perder ar e normalmente rebenta. Assiste-se então à queda abrupta de preços que se materializa normalmente em crash, que pode ou não originar uma crise económica e financeira.

Foi assim em 1620 com a bolha dos bolbos de tulipa, em 1929 com a Grande Depressão, na década de 90, também do século passado, com as “dotcom” e, ainda, em 2008, com a crise do “subprime”. E, quem sabe se uma das próximas bolhas não vai mesmo ser a das “criptomoedas” (veja texto mais à frente neste dossier de capa).

«Na actualidade, afigura-se que vivemos várias bolhas especulativas de dimensão e velocidade crescente. Os mercados bolsistas sobem continuamente em trajectória exponencial. A febre das moedas digitais resultou em crescimento do preço de algumas destas moedas, nomeadamente da Bitcoin, acima do verificado na febre das tulipas do século XVII na Holanda e da bolha da Companhia dos Mares do Sul, a qual arruinou, entre outros, Isaac Newton. Ou seja, é provável que se esteja presentemente a assistir ao crescimento de algumas das maiores bolhas especulativas da história da civilização e à primeira verdadeira bolha à escala global», diz o economista Ricardo Cabral, em artigo de opinião no jornal “Público”, em Janeiro deste ano.

A história também nos diz que uma das traves mestras para a formação de bolhas especulativas é a existência de alavancagem financeira, que surge normalmente após ciclos económicos de grande expansão e de elevada liquidez. A esta matéria-prima associam-se depois irracionalidades de comportamentos, que levam muita gente a investir de forma desproporcionada.

E como diz o economista espanhol Trías de Bes: «Quando alguma coisa sobe um pouco, as pessoas fazem perguntas e depois compram. Mas quando alguma coisa sobe muito, as pessoas compram sem fazer perguntas.»

As cinco fases da bolha
Uma bolha financeira tem cinco fases distintas, diz-nos a Investopedia: enamoramento por um novo paradigma, ascensão acelerada do preço, euforia, tomada de mais-valias e pânico.

Olhando para a actual realidade dos mercados accionista e obrigacionista, verificamos que, recentemente, estes apresentaram quedas muito significativas a nível mundial. E como diz o economista Vítor Bento, num artigo de opinião publicado em Fevereiro passado no DN, «se se trata de “um ajustamento técnico” do mercado, para libertar a pressão excessiva da bolha, e sem consequências de maior, ou do início do rebentamento da bolha, que poderá dar azo a uma nova crise económica, não temos possibilidade de saber. O resultado vai depender muito da forma como reagirem os agentes económicos, e, nomeadamente, os investidores financeiros. Se entrarem em pânico, poderão precipitar um sobreajustamento dos mercados, e levar ao segundo caminho, como aconteceu a seguir a 2007; se reagirem mais friamente e souberem digerir racionalmente as perdas inevitáveis, poderemos ficar pela primeira hipótese de resultado».

Vítor Bento alerta, no entanto, que mesmo que se assista agora a um “ajustamento técnico”, o problema persiste: «É o do endividamento.»

Em causa está o facto de se estar a presenciar um aumento continuado da dívida à escala mundial, cujo ritmo é muito mais acelerado do que o do crescimento do Produto Interno Bruto, com a China a liderar esse movimento. Ainda segundo Vítor Bento, as dívidas públicas dos países só não se tornaram ainda um problema maior, porque tem havido intervenção dos bancos centrais no sistema financeiro.

Por exemplo, o Banco Central Europeu (BCE) tornou-se mesmo num dos maiores credores dos Estados com dívidas elevadas. No caso português, o BCE comprou, até ao final de 2017, mais de 31,5 mil milhões de euros em dívida pública portuguesa ao abrigo do programa de injecção de dinheiro ultrabarato na Zona Euro, o denominado quantitative easing ou expansão monetária.

Assim, como admite o economista Vítor Bento, há duas ilações a tirar: «Uma é que, embora a abominação do financiamento monetário dos Estados tivesse sido consagrada na arquitectura da UEM, foi esse financiamento, de facto, que salvou a União Monetária e evitou o seu descalabro financeiro. A outra é que a intervenção na crise financeira mudou o papel e a natureza dos bancos centrais. Deixaram de ser os controladores da massa monetária – cuja incapacidade de a influenciarem, e com ela a inflação, se tem tornado patente, não obstante a liberalidade com que criam base monetária – e passaram a ser intermediários de risco de crédito.» Face a esta política assumida pelos bancos centrais nos últimos anos, os seus balanços devem estar próximo do limite, o que reduz a margem de manobra para futuros amortecimentos, se a bolha financeira estoirar e uma nova crise emergir. «Esperemos, pois, que estes sobressaltos não passem de um “ajustamento técnico”», diz, esperançoso, Vítor Bento.

A verdade é que, olhando para as várias bolhas financeiras que aconteceram ao longo da história (veja texto na página seguinte), o mundo parece que continua a não querer aprender a lição. De tempos a tempos, as bolhas especulativas sucedem-se, ou por desequilíbrios das políticas económicas ou pela irracionalidade dos investidores que se deixam atrair pela velha teoria do lucro rápido e fácil. E a ratoeira parece que já está novamente armada. Quanto tempo falta até estoirar a próxima bolha especulativa?

Artigo publicado na revista Risco n.º 8 de Primavera de 2018.

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