Crowdfunding: o que é e como funciona?

Do recreio da escola ao concerto solidário, será difícil encontrar quem nunca tenha contribuído com um valor residual para alguma causa ou iniciativa.

O crowdfunding, ou financiamento colaborativo, tem uma base semelhante, referindo-se à angariação de fundos de diferentes investidores e apoiantes, que contribuem com pequenas quantias monetárias para organizar uma determinada iniciativa, apoiar uma causa ou criar um produto.

Inicialmente utilizado para apoiar causas ligadas às artes, cultura e solidariedade social, o crowdfunding tem vindo a ganhar expressão. Com a sua crescente penetração, sobretudo em hábitos de consumo, a internet tornou-se um poderoso aliado deste método de angariação de fundos. Plataformas como a Indiegogo, criada em 2006, e a Kickstarter, que surgiu em 2009, popularizaram o crowdfunding e criaram uma base tecnológica que facilitou a apresentação dos projectos e a ligação à comunidade, tornando as transacções mais acessíveis. Os empreendedores portugueses não ficaram para trás e aderiram à tendência, criando plataformas para projectos locais, como a PPL, lançada em 2011. Paralelamente, a crise que se instalou em 2008 foi também uma aliada de peso, que colocou o crowdfunding na mente dos portugueses.

GRÃO A GRÃO ENCHE A GALINHA O PAPO

O financiamento colaborativo tornou-se um método muito favorável para projectos que, de outra forma, dificilmente se desenvolveriam por não terem lugar no portefólio dos investidores ou o incentivo de entidades governamentais. De facto, este método de angariação de fundos apresenta grandes vantagens, principalmente em relação à redução do risco para os promotores que estão a criar um negócio ou uma ideia.

Parte da atractividade do crowdfunding tem a ver com a acessibilidade, flexibilidade e rapidez que proporciona. Ao estabelecerem a ligação directa entre o promotor e o apoiante, as plataformas tornam-se palco de grandes projectos e, ao permitirem o financiamento sem burocracias, incentivam ao investimento.

Com a popularidade destas plataformas, é crucial criar projectos de sucesso, que se destaquem entre a multidão. O sucesso dos projectos depende da relação que os potenciais apoiantes têm com a causa e com os promotores, por isso, aqueles com impacto local e visibilidade são mais atractivos. A simplicidade da mensagem e a objectividade são também factores a ter em conta na hora de apresentar o projecto, uma vez que os investidores se sentem mais confiantes em apoiar projectos, quanto mais realista e perceptível for aquilo que lhe for apresentado.

Actualmente, entre os projectos mais populares da plataforma PPL encontram- se as causas sociais, ora locais – como o último alfarrabista da cidade –, ora de ajuda sem fronteiras para países mais desfavorecidos.

CROWDFUNDING COMO ALTERNATIVA AO INVESTIMENTO

Face aos desafios que surgem com a democratização e propagação destas plataformas, tornou-se necessário criar uma legislação que estabelecesse critérios e limites para o financiamento colaborativo.

Em Portugal foi implementada uma lei no fim de 2015 com o objectivo de regular as plataformas de crowdfunding, a qual estava incompleta devido à falta de um regime sancionatório. Nesse sentido, foi necessário formular e aprovar um regime que permitisse esta lei estar completa e entrar em vigor. No início de 2018, este foi finalmente aprovado e publicado em Diário da República, dando origem à obrigatoriedade de registo e aprovação da CMVM de plataformas que pressupõem retornos financeiros (de capital e de empréstimo).

A nova legislação estabelece dois tipos de financiamento colaborativo, divididos em quatro modalidades (ver caixa).

Nos modelos sem retorno financeiro, o crowdfunding traz os seus benefícios para os apoiantes, destacando-se a flexibilidade e acessibilidade, e os seus riscos, como a possibilidade de menor transparência nos projectos e na falta de identidade dos seus promotores.

Nos modelos com retorno financeiro, os benefícios para os investidores prendem-se também com a rentabilidade dos projectos e, entre os riscos, destacam- se o incumprimento por parte da entidade a que empresta o dinheiro ou situação de falência da entidade gestora da plataforma.

Nos últimos anos, uma das maiores evoluções do crowdfunding tem sido a aplicação deste modelo ao mundo dos investimentos. Entre os vários formatos de crowdfunding, o de capital (equity) e de empréstimo começaram a ganhar peso como novas alternativas ao financiamento e investimento. Actualmente, esta nova forma de colocar as poupanças a render via online, muitas vezes com rentabilidades superiores aos instrumentos financeiros tradicionais, veio democratizar o acesso a sectores atractivos que, no passado, eram inacessíveis à maioria da população. Através de plataformas online de crowdfunding de investimento, qualquer pessoa tem a possibilidade de investir em startups, negócios em expansão ou até mesmo no imobiliário.

CROWDFUNDING DE CAPITAL (EQUITY)

Na modalidade de equity, qualquer pessoa pode investir numa empresa que tipicamente está no seu estágio inicial e não só, em troca de uma participação no capital social da empresa financiada, sendo que a remuneração do financiamento obtido é através da distribuição de dividendos ou partilha de lucros.

Foi este modelo que levou startups e outros projectos a procurar formas alternativas para se financiarem. Neste sentido, esta forma de captação de capital tornou-se especialmente atractiva para empreendedores que querem fazer crescer a sua empresa, dando-lhes a possibilidade de divulgarem o seu projecto e de receberem investimentos de qualquer parte.

Actualmente existem plataformas de crowdfunding de equity em todo o mundo, que permitem a qualquer pessoa investir em pequenos negócios com menos de 50 euros (como é o caso da Seeders). Estas plataformas não só trazem vantagens para as startups como também para os próprios investidores.

• Liberalização do mercado – em comparação com outros modelos de financiamento, este oferece maiores oportunidades a startups que não preencham as formalidades, quer de fundos tradicionais ou da banca mais tradicional, e menos barreiras à entrada, na medida em que a maioria das plataformas apenas cobra uma pequena taxa para cada campanha de financiamento;

• Plataforma de diálogo – estas plataformas acabam por ser uma forma de diálogo entre startups e investidores, sendo que os empreendedores podem aproveitar o contacto com o público para obter feedback e ideias que possam ser úteis durante uma fase inicial de desenvolvimento do produto ou serviço;

• Repartição do risco – estamos perante um grande grupo de pessoas que investe com valores mais reduzidos, o que permite diminuir o risco individual;

• Democratização e descentralização – este modelo fornece ainda a qualquer pessoa um maior poder e controlo sobre as empresas em que decide investir, podendo possivelmente financiar a próxima geração de empresas de sucesso.

No entanto, antes de investir, deve avaliar cada projecto e decidir se este é indicado para o seu perfil, tendo em conta a sua tolerância ao risco. Investir em startups e negócios numa fase inicial não deixa de envolver alguns riscos, nomeadamente, falta de liquidez, de dividendos, quando existe reinvestimento dos lucros, perda de investimento, caso o negócio falhe, e diluição do investimento, caso a startup levante novamente capital.

Como tal, aconselha-se que invista em startups como parte de um portefólio diversificado. Isto significa que deve investir quantias relativamente pequenas em várias empresas, em vez de uma quantia maior numa ou duas empresas, com o objectivo de diversificar o risco. Por sua vez, deve investir apenas uma pequena proporção de seu capital em novas empresas, optando por colocar uma maior proporção em activos mais seguros e com maior liquidez, através, por exemplo, do crowdfunding de empréstimo.

Apesar dos riscos, se tomar algumas medidas simples para os mitigar, o investimento em startups numa fase inicial pode ser bastante recompensador e envolver o investidor em empresas inovadoras e de sucesso.

CROWDFUNDING DE EMPRÉSTIMO (P2P LENDING)

Na modalidade de empréstimo, em vez da obtenção de uma participação na empresa, os inves tidores concedem um empréstimo a uma pessoa singular ou empresa para um fim específico, sendo que a entidade financiada remunera os investidores através do pagamento de juros. Este modelo, também chamado de peer-to-peer de empréstimo (P2P), permite a concessão de um empréstimo em dinheiro, sem a necessidade de recorrer aos bancos tradicionais.

A popularidade do financiamento por empréstimo colaborativo cresceu rapidamente, assim que investidores e entidades, que pretendiam angariar capital, se aperceberam das vantagens que este modelo tem em comparação com instrumentos financeiros tradicionais.

As plataformas de crowdfunding de empréstimo acabaram por especializar-se em diferentes tipologias de promotores que pretendem angariar capital para diferentes fins, tais como pessoas singulares (para empréstimos pessoais), empresas (como é o caso da Raize) e negócios imobiliários (como é o caso da Housers). Uma das principais vantagens para o promotor é ter acesso directo a grandes quantidades de capital, sem a necessidade de passar por autorizações e burocracias de credores tradicionais, permitindo que o processo de empréstimo avance de forma simples e rápida.

Por sua vez, para os investidores é uma oportunidade para aplicarem em novas tipologias de activos sem a exigência de uma grande quantia inicial. A partir de baixos montantes pode investir-se de forma fácil e rápida, diversificando a carteira de investimentos – pode optar por uma plataforma de crowdfunding imobiliário (a partir de 50 euros) e investir num sector em crescimento, ou por uma plataforma de crowdfunding para pequenos negócios (a partir de 10 euros) de diversos sectores. Simultaneamente, estes empréstimos de curto prazo oferecem menor risco e taxas de juros altamente competitivas para os investidores, em relação a instrumentos financeiros tradicionais, e o retorno é mais facilmente calculado.

LIMITES AO INVESTIMENTO DE CROWDFUNDING

Em ambos os modelos, para se juntar a esta comunidade de financiamento colaborativo, o investidor apenas tem de inserir algumas informações pessoais e sobre a sua conta bancária. Desta forma, é definido um perfil de investidor, que pressupõe determinados limites de investimento impostos recentemente pela lei, para evitar o endividamento dos investidores singulares e situações de especulação. As plataformas estão actualmente a adaptar- -se a estes valores.

Tanto no modelo de crowdfunding de capital como de empréstimo, os investidores não podem investir um valor anual superior ao definido em Portugal pela CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, que varia em função do seu rendimento anual e perfil de investidor.

Uma pessoa singular com rendimento anual inferior a 70.000 euros trata-se de um investidor não qualificado e pode investir até 3.000 euros, perfazendo um total de 10.000 euros de investimentos realizados no período de 12 meses. Estes limites não existem para pessoas singulares com rendimentos iguais ou superiores aos 70.000 euros, definidos como investidores qualificados (entre outras características que também podem definir um investidor como qualificado).

Adicionalmente, a entidade reguladora também define limites máximos de angariação de fundos para cada oferta. No caso de o investidor ser não qualificado pode participar em ofertas até 1.000.000 euros; se for qualificado o limite é de 5.000.000 euros.

CROWDFUNDING DE CAPITAL (EQUITY) VS. CROWDFUNDING DE EMPRÉSTIMO

Em qualquer investimento há riscos envolvidos, como tal, antes de o investidor colocar o capital a render através de crowdfunding é importante avaliar cada situação e confirmar se será indicada para o seu perfil.

Comparando os dois modelos, de um ponto de vista simples e prático, no caso de crowdfunding por capital o investidor tipicamente não controla o momento em que poderá reaver o capital investido, ou seja, tem de esperar que chegue o eventual momento em que possa vender as acções. Já na modalidade de empréstimo, a duração do projecto está previamente definida.

Os dois tipos de crowdfunding abrem o leque de oportunidades de investimento, tanto a investidores com um nível mais elevado de conhecimento financeiro, como a investidores com pouco conhecimento em investimentos e que procuram uma forma mais rentável de aplicar as suas poupanças.

Em ambos os modelos, todos os projectos divulgam as informações pertinentes e necessárias, por isso cabe ao investidor avaliar a documentação adequada e as implicações de cada projecto, antes de investir um cêntimo do seu capital.

CONFIANÇA É A CHAVE PARA ATRAIR INVESTIDORES

O crowdfunding como forma alternativa de investimento, sobretudo no sector imobiliário (ver caixa), é um modelo que está a crescer rapidamente a nível internacional e em Portugal já é uma tendência. Um dos factores que define o êxito e o futuro de uma plataforma desta tipologia é a confiança. A maioria dos investidores começa por montantes muito reduzidos e, à medida que vai ganhando confiança, vai aumentando o valor dos investimentos. Como tal, o sucesso do financiamento dos projectos anteriores é fundamental para ganhar a confiança dos investidores, bem como as recomendações e opiniões de amigos, familiares ou até mesmo de desconhecidos (através de fóruns e grupos online).

O aparecimento das chamadas fintech no mercado comprova o potencial do crowdfunding aplicado a vários sectores e continuarão a crescer, oferecendo aos investidores uma alternativa onde investir e com rentabilidades muito atractivas.

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