«É preciso arriscar mais!»

A brincar a brincar, a Science4you já existe há uma década. Um projecto que se deve em exclusivo ao empreendedorismo e ao espírito de risco empresarial assumido desde muito jovem por Miguel Pina Martins.

Hoje com 33 anos, já é um empresário de sucesso e afirma que criar a Science4you foi a decisão mais arriscada da sua vida. Na altura, com apenas 23 anos e um emprego estável na área da banca como trader, decidiu arriscar tudo e recuperar o seu projecto académico: brinquedos científicos.

Tudo começou na universidade, o ISCTE, em que por sorteio lhe foi atribuído o tema “kits de Física” para desenvolver um plano de negócios. Um desafio arriscado, mas que Miguel Pina Martins soube aproveitar. E em boa hora o fez, pois foi este o passaporte que lhe permitiu, em conjunto com a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, criar a Science4you. Foi graças ao espírito empreendedor, ao gosto pelo risco, que já conquistou vários prémios, entre eles o de empreendedor em 2010 e em 2015; além disso, foi condecorado pelo ex-Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a “ordem de mérito empresarial”.

Hoje a Science4you, além de se dedicar ao desenvolvimento e à comercialização de brinquedos científicos – são já mais de 300 – para crianças entre os 13 e 14 anos, aposta também na formação científica e desenvolve actividades para crianças: festas de aniversário e campos de férias e animação científica. Já tem subsidiárias em Espanha e no Reino Unido, e exporta para 35 países.

No entanto, ser empresário é mais arriscado do que ser gestor porque, diz Miguel Pina Martins, «o modelo de financiamento bancário das empresas, como a Science4you, é assente em avais pessoais, por isso, se a empresa ou ideia falhar, o empresário também falha». Um risco que o empresário e CEO da Science4you também correu ao tentar colocar parte do capital da empresa em Bolsa, operação que teve de ser adiada, porque o timing não foi o mais adequado.

 

O que é para si o risco?

Risco nos negócios existe sempre, não há como eliminá-lo e temos de avaliar muito bem os impactos (negativos ou positivos) em qualquer situação. O risco é, muitas vezes, associado a perigo, mas, enquanto gestor, vejo oportunidades e ameaças que fazem parte do meio empresarial.

 

Os portugueses são avessos ao risco?

É preciso arriscar mais! É possível ser empreendedor e criar emprego, mas para isso também é preciso arriscar. Como tenho vindo a referir, ainda nos falta recuperar o espírito arrojado dos Descobrimentos, mas não só. A conjuntura económica actual pesa e isso justifica em parte a nossa cultura. No entanto, temos de continuar a explorar mais e levar o País a novas descobertas e novos mundos.

 

E os bancos?

O modelo de financiamento bancário é de forma natural avesso ao risco e é um modelo com margem muito curta e sem espaço para riscos.

 

Por que não há em Portugal mais capital de risco?

Temos de nos tornar mais interessantes e para isso precisamos de mudanças estruturais. Como a educação que se lecciona nas escolas, algo que “não custa dinheiro”, há coisas mais importantes do que a memória, mas o nosso sistema de ensino está muito focado nessa memória. É importante que a educação seja adaptada aos desafios actuais, económicos e tecnológicos, à economia global e a contextos multiculturais. Ainda assim, temos registado um desenvolvimento interessante em termos de inovação e de captação de investimento privado, sendo a Science4you um exemplo a considerar.

 

Qual foi a decisão mais arriscada que teve de tomar na vida?

Deixar o emprego estável que tinha e criar a Science4you.

 

Já se arrependeu de não ter arriscado?

Muitas vezes. Já me arrependi de ter arriscado, como é o caso da IPO, e também me arrependo de não ter arriscado, por exemplo, em investir mais numa linha de brinquedos que acabou por vender mais do que aquilo que investimos.

 

Ser empresário em Portugal é mais arriscado do que ser gestor?

Sim, porque o modelo de financiamento bancário das empresas, como a Science4you, é assente em avais pessoais. Deste modo, se a empresa ou ideia falhar, o empresário também falha.

 

Acaba de tentar colocar parte do capital da Science4you em Bolsa, mas a operação não se concretizou. O que é que correu mal?

Não foi conseguido o “timing” para fazer a operação, nem foi a altura certa, mas trata-se de um problema global e não apenas da empresa. Foram cancelados mais de 150 processos de IPO no mundo, e em Portugal, tanto a Sonae como a Vista Alegre também o fizeram.

 

Sente que os pequenos investidores em Portugal querem apostar em pequenas empresas inovadoras?

Sim, encontrando boas oportunidades, há interesse. Existe também uma maior sensibilidade ao investimento.

 

Vai voltar a tentar dispersar parte do capital da empresa no mercado de capitais?

Sim. Estamos neste momento à procura de uma boa oportunidade.

 

Por que há tão poucas empresas a apostar no mercado de capitais para se financiarem?

Em Portugal o mercado de capitais está com muito pouca liquidez, o que não ajuda as empresas a arriscarem neste instrumento financeiro.

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