«Maior entidade financeira do mundo já não é um banco»

A revolução tecnológica está a criar uma onda de novos players 100% digitais no sistema financeiro, as Fintech, que, segundo o economista Ricardo Arroja, vão colocar cada vez mais pressão sobre os rendimentos de serviços e comissões da banca tradicional.

Esta nova realidade é, no entanto, benéfica, porque obriga os bancos a modernizarem-se. «E muitas Fintechs serão naturalmente adquiridas pelos bancos tradicionais», admite Ricardo Arroja. O economista e antigo gestor de carteira de investimento sublinha, contudo, que as Big Tech são inimigos reais: «A verdadeira ameaça existencial à banca tradicional resulta da possibilidade de as FAANG (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google) entrarem no negócio bancário.» Ainda no final do ano passado a Google Payment obteve autorização para emitir dinheiro electrónico, processar pagamentos, fazer transacções bancárias ou gerir carteiras financeiras digitais (usadas para fazer compras online) em toda a União Europeia. Este gigante junta-se assim aos seus rivais Amazon, Facebook e Revolut, que também já têm luz verde para operar no mercado financeiro da Eurolândia.

Como é que a banca tradicional se está a adaptar à nova revolução tecnológica que está em marcha? Quais são os principais pilares estratégicos de sobrevivência indispensáveis?

A banca tradicional está a reduzir pessoal e número de agências. Em parte, esta evolução reflecte a tendência para a digitalização bancária, em parte representa o ajustamento da baixa produtividade que durante anos o sector bancário evidenciou em Portugal, a avaliar pelo crédito e depósitos por balcão e activo por número de empregados.

A concorrência de empresas como a Revolut, a Google e a Amazon, entre muitas outras Fintech, é uma verdadeira ameaça, que a prazo pode levar à extinção de bancos tradicionais?

São uma ameaça significativa porque vão colocar pressão sobre os rendimentos de serviços e comissões da banca. Ao mesmo tempo, são também uma oportunidade, porque através das Fintech a banca tradicional será desafiada a modernizar-se e muitas Fintech serão naturalmente adquiridas pelos bancos tradicionais.

A nova estratégia bancária vai obrigar a uma nova onda de fusões e aquisições em Portugal e na Europa?

A banca em Portugal já apresenta níveis fortíssimos de concentração. A concentração bancária em Portugal é, de resto, das mais altas em toda a Europa. E, de facto, o capital accionista espanhol já é dominante no nosso País. É difícil que tenhamos em Portugal uma onda de novas fusões.

No futuro haverá poucos bancos tradicionais e muitas entidades tecnológicas financeiras?

A verdadeira ameaça existencial à banca tradicional resulta da possibilidade de as FAANG (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google) entrarem no negócio bancário. Na verdade, uma ou outra já deram os primeiros passos nesse sentido. Ao mesmo tempo, actualmente, a maior entidade financeira do mundo já nem sequer é um banco; é a Ant Financial – o braço parafinanceiro da chinesa Alibaba.

A legislação e os órgãos de supervisão têm estado à altura do novo desafio que o sector financeiro enfrenta?

Na minha opinião, não. Em particular, o Banco de Portugal poderia ser um difusor muito mais activo do paradigma Fintech e, de um modo geral, de toda a inovação financeira que tem vindo a florescer internacionalmente. Na verdade, vejo outros reguladores, não especializados, como a Autoridade da Concorrência (que no ano passado publicou um excelente relatório sobre inovação financeira), mais activos na promoção da modernidade financeira.

Os consumidores portugueses estão preparados para aderir em força à banca digital, ou o risco de segurança e transparência são ainda uma grande barreira?

Os consumidores portugueses têm aderido às novas tecnologias com entusiasmo. O sucesso da nossa rede de multibanco é um bom exemplo. Ao mesmo tempo, as sondagens também indicam que, cada vez mais, são menos os portugueses que apreciam uma ida ao balcão do seu banco. É, aliás, visível que alguns bancos começam também a transformar as suas agências em espaços diferentes (mais de lazer do que negócio) e que a digitalização, através do homebanking, está a fazer o seu caminho. A minha opinião é que a tendência, independentemente do seu ritmo, é irreversível.

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