«Não é líquido que as big techs vençam no sector bancário»

As endinheiradas Google, Facebook e Amazon preparam-se para atacar o mercado financeiro à escala global e, por isso, são uma verdadeira ameaça à banca tradicional. Sebastião Lancastre, fundador e CEO da Easypay, uma empresa 100% tecnológica especializada em desenvolvimento de soluções de pagamento, também partilha da mesma opinião.

No entanto, considera que o sucesso destes “tubarões” não está garantido. «Depois de sabermos o que o Facebook ou Google fazem com os nossos dados, será que queremos dar-lhes mais informação ainda? Ainda por cima dados financeiros?», alerta. Já no que diz respeito às Fintech, o gestor garante que, ao contrário da banca tradicional, as Fintech «têm mais noção das reais necessidades dos clientes e uma visão muito concreta sobre o digital e a sua aplicação».

 

Como é que revolução tecnológica e o nascimento de novos operadores, como as Fintech, estão a mudar a estratégia de actuação da banca tradicional?

A forma de actuar da banca tradicional não mudou com o aparecimento das Fintech. O que mudou foi a expectativa do cliente perante um banco. E por isso é que estas estão a ganhar cada vez mais espaço. As Fintech como a Easypay funcionam a uma velocidade muito maior, têm mais noção das reais necessidades dos clientes, uma visão muito concreta sobre o digital e a sua aplicação, são muito flexíveis, rápidas e ágeis na entrega de soluções e não têm medo de errar. Apenas têm medo de se tornarem obsoletas.

A concorrência de empresas como a Revolut, a Google e a Amazon, entre muitas outras Fintech, é uma verdadeira ameaça, que a prazo pode levar à extinção de bancos tradicionais?

Sim, as chamadas Big Tech são uma ameaça à existência de bancos tradicionais. Mas é importante destacar que, pelo seu tamanho e sucesso nas respectivas áreas de actuação, não é líquido que empresas como a Google, Amazon ou Facebook vençam no sector bancário, principalmente por uma questão de confiança por parte dos clientes. Depois de sabermos o que o Facebook ou Google fazem com os nossos dados, será que queremos dar-lhes ainda mais informação? Ainda por cima dados financeiros?

As Big Techs têm bolsos fundos e por isso são mais rápidas a inovar e têm uma maior margem para errar e, nesse sentido, são efectivamente uma ameaça à banca tradicional e às próprias Fintech.

Fintech são uma ameaça para a banca? Não. São uma forma diferente de actuar na banca e se os incumbentes, os bancos tradicionais, assumirem as suas fraquezas e olharem para a agilidade e rapidez das Fintech como oportunidade, abrem-se novas formas de colaboração e de melhor servir os clientes. Estas parcerias já são visíveis. A Easypay trabalha actual mente com bancos como o BBVA ou o BNI Europa. Parcerias assim são ainda uma forma de combater a preponderância das Big Techs.

 

Acredita que nova estratégia bancária vai obrigar a uma nova onda de fusões e aquisições em Portugal e na Europa?

Acredito que o sector bancário vai mudar radicalmente num futuro muito próximo. Daqui a cinco anos, nada vai estar igual. Desde a extinção do dinheiro em numerário, até ao desaparecimento do dinheiro em plástico. Os próprios cartões vão tornar-se obsoletos. Não acredito, porém, que a mudança surja por fusões ou aquisições, mas pela proliferação de serviços por diferentes agentes. Os clientes querem especialistas nas áreas. Daqui a uns anos, os bancos continuarão a existir, mas em coexistência com centenas de Fintech.

 

No futuro haverá poucos bancos tradicionais e muitas entidades tecnológicas financeiras?

Sim. O caminho será sempre o da especialização em diferentes áreas. Os bancos não vão desaparecer, mas não vão concentrar neles todos os serviços. A lógica de um banco, hoje em dia, passa por prender um cliente com um crédito à habitação e vai vendendo outros produtos por aí. Isso vai acabar. Os bancos vão continuar a ter o seu papel importante no crédito, mas a entrada de Fintech no mercado vai mudar muito o sector. A legislação e os órgãos de supervisão têm estado à altura do novo desafio que o sector financeiro enfrenta? Não. Portugal está a ser ultrapassado por países como a Estónia, a Lituânia, ou a própria Espanha, que vivem há muito tempo com a nova Directiva para os Pagamentos. Espanha, aliás, criou uma Sandbox para o sector financeiro, ou seja, um espaço onde podem ser desenvolvidas ideias inovadoras para o sector, sob supervisão do Estado para protecção dos empreendedores e dos próprios consumidores.

Estes são países que, entre outros, estão abertos à tecnologia e vêem na mudança uma oportunidade e não uma ameaça. É certo que queremos que a transição para esta nova era digital na banca seja feita com pés e cabeça e que o nosso regulador faça o seu trabalho bem feito, e é natural que isso demore tempo. Mas não pode demorar demasiado tempo. Estamos a perder competitividade e a ficar para trás. É isso que queremos para Portugal?

 

Os consumidores portugueses estão preparados para aderir em força à banca digital, ou o risco de segurança e transparência são ainda uma grande barreira?

Os portugueses querem desenvolvimento e querem tecnologia aplicada ao dinheiro, mas por alguma razão não estamos a conseguir que adoptem novas práticas. Em Portugal, 70% dos pagamentos ainda são feitos em numerário. Na Suécia são apenas 19%! O que é que está a travar a adopção de novas formas de utilização de dinheiro? O preço. É comum chegarmos a uma loja que apenas aceita o pagamento com cartão para compras acima de cinco euros. Porquê? Porque é caro. Enquanto continuarmos assim, não vamos conseguir uma proliferação de novas tecnologias aplicadas ao sector financeiro.

Por outro lado, existe uma correlação entre a elevada utilização de dinheiro em numerário e a economia paralela nos países. É urgente criar políticas que lutem contra a evasão fiscal, através do incentivo para a utilização de novos meios de pagamento.

Ler Mais
Notícias relacionadas
Comentários
Loading...

Multipublicações

Marketeer
Sporting CP: partilhar é o maior presente de todos
Automonitor
Renault lamenta morte do pai dos Dacia Kwid, Sandero e Logan