O que aprendemos com o colapso do Lehman Brothers?

Dez anos após a falência do Lehman Brothers, que espoletou a grave crise financeira global, a agora presidente do BCE, Christine Lagarde, explica-nos o que aprendemos e os desafios que temos pela frente.

O colapso do Lehman Brothers provocou uma ampla corrida ao sistema financeiro, que conduziu a uma crise sistémica. No total, 24 países sofreram crises bancárias e, na maioria deles, a actividade económica ainda não retomou a tendência anterior. Um estudo sugere que um americano médio perderá 70 mil dólares de rendimento ao longo de sua vida devido à crise. Os governos também continuam a ser afectados. Nas economias avançadas, a dívida pública aumentou mais de 30 pontos percentuais do PIB, em parte devido ao enfraquecimento económico, aos esforços para estimular a economia e ao resgate dos bancos em dificuldades.

Hoje, os pontos de pressão parecem óbvios, mas não eram tão evidentes naquele momento. Poucos economistas previram o que estava prestes a ocorrer.

Quais eram esses pontos de pressão? No centro de tudo estava a inovação financeira, que avançava a um ritmo muito superior ao da regulamentação e supervisão. As instituições financeiras, principalmente nos EUA e na Europa, começaram a assumir riscos cada vez maiores de forma imprudente. Em vez de depósitos tradicio nais, passaram a utilizar mais captação de curto prazo, reduziram acentuadamente as exigências para a concessão de crédito, retiraram empréstimos do balanço patrimonial por meio de securitizações nebulosas e, de forma mais geral, transferiram as suas actividades para os recantos mais obscuros do sector financeiro, sujeitos a menos fiscalização. Por exemplo, nos Estados Unidos, em 2006, os créditos subprime chegaram a atingir 40% do total de títulos garantidos por hipotecas, em comparação com praticamente zero, no início da década de 1990.

Por sua vez, a maior globalização dos serviços bancários e financeiros fez com que a crise se alastrasse de forma rápida e perigosa. Os bancos europeus eram grandes compradores de títulos norte-americanos. Ao mesmo tempo, o lançamento do euro levou grandes fluxos de capitais para os países periféricos, graças à queda do custo de captação. Esses fluxos foram financiados pelos bancos dos países centrais da área do euro, o que representou outro canal de contágio. A globalização também contribuiu para o problema, por meio da arbitragem regulamentar: a possibilidade de transferir operações para jurisdições mais favoráveis dava às instituições financeiras condições de exigir uma supervisão menos estrita.

Se a reacção a esses riscos, antes da crise, foi inadequada, eu diria que a reacção de política imediata à crise foi impressionante. Os governos das principais economias, representadas pelo G20, coordenaram as suas políticas económicas à escala global. Os países com problemas bancários limitaram o dano do colapso dos seus sectores financeiros sobre a economia real, por meio de medidas como aumentos de capital, garantia de dívidas e compra de activos. Os bancos centrais cortaram as taxas de juro, aliviando a política monetária e, posteriormente, entraram no terreno desconhecido das políticas monetárias heterodoxas. Os governos apoiaram a procura por meio de grandes estímulos orçamentais.

O FMI também cumpriu o seu papel. Mobilizámos os países membros para expandir enormemente os nossos recursos financeiros e, como resultado, conseguimos disponibilizar mais de 500 milhões de milhões de dólares para os países afectados pela crise. Também injectámos no sistema um volume, sem precedentes, de 250 milhões de milhões de dólares de liquidez global. Modernizámos os nossos quadros de empréstimos, para permitir uma resposta mais rápida e mais flexível às necessidades dos países, inclusive reduzindo para zero os juros sobre empréstimos para países de baixa renda. Além disso, iniciámos um profundo reexame das teorias macroeconómicas para compreender melhor o que todos havíamos deixado de perceber, inclusive os vínculos complexos entre o sector financeiro e a economia real.

A política económica também abordou os erros que levaram à crise. Os bancos hoje contam com posições de capital e de liquidez muito mais sólidas. As entidades extrabalanço também foram contidas e trazidas para dentro da estrutura regulatória. Os grandes bancos estão sujeitos a regras mais rígidas e a alavancagem é menor. As hipotecas subprime são coisa do passado. Passou-se a aplicar regras de compensação centralizada para a liquidação de uma grande parcela dos derivativos de balcão.

Tudo isso é positivo, mas ainda não basta. Um número excessivo de bancos, sobretudo na Europa, continua em situação frágil. Talvez seja preciso aumentar ainda mais a capitalização bancária. “Grande de mais para quebrar” ainda é um ponto problemático, à medida que os bancos se tornam maiores e mais complexos. Não fizemos avanços suficientes na solução dos bancos que faliram, principalmente no plano transnacional. Muitas das actividades mais nebulosas estão a ser transferidas para o sector bancário paralelo. No meio de tudo isto, a inovação financeira constante – como as negociações de alta frequência e as fintech – cria novos desafios para a estabilidade financeira. Além disso, e talvez o aspecto mais preocupante, as autoridades económicas estão enfrentando uma enorme pressão por parte do sector financeiro para eliminar a regulamentação pós-crise.

Para complicar ainda mais a questão, o cenário da política económica mudou, com o enfraquecimento da cooperação internacional – ironicamente, o mesmo tipo de cooperação que evitou que a crise se transformasse numa nova Grande Depressão. Basta lembrar o papel desempenhado pelo G20, o FSB, o FMI e outras instituições, que coordenaram os seus esforços ao longo da última década. De facto, a importância da cooperação internacional para enfrentar os desafios do século XXI é uma das lições mais duradouras da crise.

Hoje enfrentamos novas falhas geológicas no período pós-crise: desde a possível eliminação da regulamentação financeira aos efeitos da desigualdade excessiva; do proteccionismo e das políticas isolacionistas aos desequilíbrios globais. As nossas decisões para enfrentar esses desafios determinarão se internalizamos totalmente as lições deixadas pelo Lehman. Nesse sentido, o verdadeiro legado da crise não pode ser devidamente avaliado após dez anos, porque ainda está a ser escrito.

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