«O risco é uma variável fundamental para o sucesso»

Ser empresário é mais arriscado do que ser gestor em Portugal. Quem o diz é Xavier Rodríguez-Martín, gestor de empresas há mais de 20 anos, e que decidiu investir forte na carreira de empresário no sector da indústria. O alvo foi a histórica fábrica de pasta de papel Fapajal, um investimento de 20 milhões de euros. Está satisfeito com o risco assumido, até porque considera que «sem risco não há progresso».

Catalão de nascimento, viu a infância e a juventude marcadas pela ditadura de Franco, e cedo percebeu que queria ter numa carreira fora de Espanha. Formou-se em Engenharia de tTelecomunicações, graduou-se em Economia e Finanças pelo ESADE (Barcelona) e tirou um MBA pelo IMD (Lausanne, Suíça).

Xavier Rodriguez-Martín tem hoje 53 anos e mais de metade da sua vida profissional foi dedicada à gestão empresarial – chairman da CapitalWorks e da Fapajal, ex-presidente da DSTelecom, ex-CEO da ONI Communications e ex-director-geral da Telefónica.

Há uns anos, apostou forte na carreira de empresário e, como o próprio admite, foi a decisão mais arriscada da sua vida. «Pelo menos, em termos patrimoniais», sublinha. Não se arrepende do passo que deu e afirma mesmo que se soubesse o que sabe hoje, há muito que se teria dedicado a 100% à carreira de empresário.

Xavier Martín cedeu finalmente à gene paterna, pois o seu pai foi um empresário do sector da metalomecânica. Para já comprou a histórica fábrica de papel de São Julião do Tojal, nos arredores de Loures, a Fapajal, que já tem mais de 260 anos.

O investimento ascendeu a cerca de 20 milhões de euros. Um risco que é partilhado com o seu parceiro de longa data, Rui Sequeira Martins. Xavier cria assim fortes raízes em Portugal, um país que diz já lhe ter conquistado o coração. «Sou catalão de nascimento, mas português de coração, porque as minhas quatro filhas nasceram todas em Lisboa.»

 

O que é o risco para si?

O risco tem uma definição mais objectiva que são as incertezas – o risco de perda, de mudança… – que nos condicionam a atingir os nossos objectivos, mas acaba por ser uma variável fundamental para o progresso. Sem risco não há progresso. Se não aceitarmos tentar descobrir novos caminhos, e a aventura que isso representa, ficamos estáticos. O risco, embora tenha estas conotações negativas porque desperta sentimentos de ansiedade, como o medo de um futuro que muitas vezes acaba por não acontecer, é uma variável que cada um de nós tem de gerir. No fundo, o risco acaba por ser uma percepção sobre o futuro, sobrevalorizado em termos negativos, mas é uma variável fundamental para fazer negócios e para o progresso da sociedade no seu conjunto.

 

Ser empresário em Portugal é mais arriscado do que ser gestor?

Ser empresário é sempre mais arriscado do que ser gestor, porque são assumidos riscos patrimoniais e de outro tipo. Já um gestor enfrenta riscos profissionais associados, embora em Portugal, frequentemente nas grandes empresas, se assista a uma mistura de responsabilidades entre o conselho de administração e os gestores de topo, o que acaba, por vezes, por fazer com que haja uma desresponsabilização directa. O que é muito confortável para os gestores. O empresário é diferente, há um património em jogo.

 

Há mais de dois anos, comprou a histórica fábrica de papel de São Julião do Tojal, nos arredores de Loures, a Fapajal, antiga Fábrica de Papel da Abelheira. Esta foi a decisão mais arriscada da sua vida?

Em termos patrimoniais é capaz de ter sido, mas devo dizer que fiz esta aquisição com o meu sócio, Rui Sequeira Martins, com quem já trabalho há mais de 20 anos. Numa situação como esta, o risco acaba por se diluir, uma vez que trabalhamos em equipa. Existe um pouco o mito do herói solitário, muito anglo-saxónico, e isso leva à vitimização de 90% dos empreendedores que falham. Considero que nas empresas, no empreendedorismo, no investimento ou no risco, devemos jogar um desporto de equipa e não de forma individual. As equipas são superiores ao individual quando é preciso analisar e assumir riscos. No meu caso, a compra da empresa foi uma decisão de equipa. O meu sócio tem capacidades muito complementares às minhas e por isso tenho a sensação de que, embora tenha sido uma decisão arriscada, esta acaba por ser racional. Não assumimos um risco além das nossas capacidades, mas sim um risco adequado.

 

Vale a pena correr o risco de apostar no sector industrial em Portugal?

Sem dúvida. Em Portugal há boas fábricas e más empresas industriais. Boas fábricas, porque fazem bons produtos, com qualidade e exportáveis, mas uma empresa é muito mais do que uma fábrica. É processo, é tecnologia, é ambição, é cultura, é equipa…. E muitas vezes, estas PME industriais em Portugal misturam os interesses dos seus donos com os interesses familiares e a empresa acaba por ser um repositório de vida desses donos/ /gestores. Isso limita o crescimento dessas empresas. O objectivo da nossa empresa, a holding através da qual devolvemos os nossos negócios, é efectivamente encontrar empresas e fábricas que tenham potencial, quando as libertamos dessas forças que limitam o seu crescimento. Tipicamente são empresas com dificuldades de sucessão, que não precisam de “turnaround”, ou tenham problemas de dívida. Há muitas boas empresas que nunca crescem por consequência disso. Portugal é um país de PME e se conseguirmos libertá-las das forças que limitam o seu crescimento, como era o caso da Fapajal, acho que temos um futuro bastante promissor.

 

A produtora de pasta de papel Fapajal já tem mais de 260 anos de existência. Como é que está a prepará-la para um século marcado pelo digital e pela inteligência artificial?

Uma empresa que tem 260 anos de história já passou por muitos ciclos. A Fapajal reinventa o papel desde o grande terramoto de Lisboa. A empresa tem-se adaptado a todos os desenvolvimentos económicos e industriais do país e já mostrou a sua resiliência. Agora, está a adaptar-se aos novos cenários, como é o da transformação digital e da oportunidade que essas novas tecnologias vão trazer. Estamos a dar à Fapajal toda a experiência que trazemos do mundo das tecnologias e das telecomunicações, esse é um dos pontos fortes do nosso projecto. A tecnologia diminui distâncias e permite às empresas de menor dimensão, como a nossa, apresentar-se aos olhos do mundo como uma grande empresa. Quando comprámos a Fapajal, há dois anos e meio, a empresa exportava 15% e hoje já exporta 90%. A qualidade do produto é muito boa e temos utilizado a tecnologia para que haja maior transparência na informação financeira e também para que os clientes possam saber, em tempo real, o que está a acontecer com as suas encomendas na fábrica. Acredito que estamos bem preparados com os projectos que temos em curso, tanto em termos de entendimento, como de aproveitamento das tecnologias. Mais importante do que as tecnologias são as pessoas que conseguem utilizar e extrair o potencial dessas tecnologias. É fundamental, para qualquer empresa, a adopção da tecnologia em termos culturais.

 

Quais são actualmente os principais mercados da Fapajal?

Temos arranjado clientes em todas as geografias. Na Europa, destaco o Reino Unido, com o contexto que todos conhecemos, mas temos conquistado clientes nos mercados norte e sul-americanos, asiático e temos alguns na costa Leste de África. O segredo não é só uma questão de processos e de equipa, mas o facto de termos colocado o cliente no centro do nosso pensamento. Tal como acontece no mundo dos serviços, definimos a empresa à volta do cliente. É esta mentalidade que tem levado a Fapajal a abrir mercados muito exigentes.

 

É catalão de nascimento, mas Portugal parece já ter conquistado o seu coração. É verdade?

Sem dúvida. Estou em Portugal há 20 anos. Sou catalão de nascimento, mas português de coração, porque as minhas quatro filhas nasceram todas em Lisboa. Portugal conquistou não só o meu coração, mas também o meu bolso, pois é o país onde tenho todos os meus investimentos. O meu presente e futuro dependem de Portugal.

 

Considera que os portugueses são avessos ao risco?

Em termos gerais, sim, e por vários motivos. Muitos dos nossos problemas estão relacionados com o facto de que os valores individuais se sobrepõem aos colectivos. Podemos ver isso manifestado não só a nível económico, mas em termos políticos ou sociais. Isso faz com que não sejamos capazes de juntar esforços para assumir aventuras e partilhar o risco de forma colectiva. Somos avessos ao risco em Portugal. Junto a isso uma certa cultura de culpa, porque falhar é um estigma e não é visto como uma forma de aprendizagem, ao contrário do que acontece no modelo anglo-saxónico. Aí, falhar é garantia de que não vamos voltar a errar. Por isso, só tentamos fazer coisas grandes quando o risco de falhar é muito reduzido. Estas características limitam a capacidade de absorver e assumir riscos em Portugal. Também é verdade que a crise ajudou a ultrapassar um pouco este estigma, noto que há hoje uma maior propensão ao risco por parte dos jovens.

 

E os bancos arriscam muito?

O sector financeiro arrisca hoje muito menos, porque a crise tem sido higiénica também em muitos aspectos. Tem havido uma melhor gestão do risco e, neste momento, os comités de crédito são muito rigorosos na análise do risco e na sua transferência. O risco é como a energia, não se destrói, transfere-se. Os americanos, por exemplo, têm criado uma grande cadeia de transferência de risco entre vários agentes e isso tem permitido suportar o desenvolvimento de várias indústrias, como a biotecnologia, entre muitas outras.

 

Mas em Portugal isso não acontece muito?

É verdade e isso deve-se ao facto de, infelizmente, a banca representar 70 a 80% do sistema financeiro português. Ao contrário, nos Estados Unidos, esses agentes representam apenas 25%.

 

Porquê que não há em Portugal mais capital de risco?

Falta capital e também não há uma verdadeira propensão ao risco, não só por uma questão idiossincrática, como a que referi, mas porque institucionalmente não existem os mecanismos para acomodar o risco. Em Espanha existe, por exemplo, a lei da segunda oportunidade e os empreendedores que falham, de boa-fé, não ficam condenados o resto da vida. Tem de haver um enquadramento legal e financeiro que acomode o risco, o que infelizmente ainda não existe em Portugal. Estamos a caminhar, mas ainda não chegámos lá. Depois, as próprias palavras também são importantes. O que nos países latinos chamam capital de risco, nos Estados Unidos esse conceito é denominado ventura-capital, ou seja, aventura. Há uma interpretação a partir da sua componente positiva, assumindo que o risco é uma variável fundamental do negócio.

 

Como é que vê o risco país face ao ciclo económico que se avizinha?

Em primeiro lugar, temos de olhar para as crises com naturalidade, porque acabam por ser momentos de fricção entre o final de um ciclo e o início de um outro. A história demonstra que o mundo caminha para o desenvolvimento. Se deixarmos de lado as macroquestões do clima ou da demografia, há hoje menos dois mil milhões de pobres no Mundo. Quanto a Portugal, lembro que perdeu a sua autonomia económica em 2011, estamos por isso muito dependentes de como evoluem economicamente os nossos parceiros. Portugal tem uma característica que pode ser particularmente relevante: é a sua neutralidade geopolítica. Veja-se, por exemplo, a colocação de portugueses em lugares de relevância internacional. Portugal pode passar a ter um papel mais importante do que a sua dimensão económica, o que poderá ser muito benéfico e permitir acomodar melhor uma eventual crise.

 

Já se arrependeu de não ter arriscado mais?

Sabendo o que sei hoje, possivelmente, teria encurtado a carreira de gestor e antecipado a vida de empresário. Vale a pena investir e arriscar porque, na minha perspectiva, o futuro é melhor do que o presente e o passado. Eu recordo-me de um estudo norte-americano, publicado há uns anos, em que avaliava qual o pensamento mais comum das pessoas quando estavam a morrer, o que curiosamente tem a ver com o risco. Um terço das pessoas dizia que devia ter arriscado, mas não o fez. Devia ter seguido o seu sonho. Devia ter tido coragem de dizer não ao trabalho que fazia e ter seguido a sua paixão. Devemos reflectir sobre isso, porque, quando não temos mais nada a perder, arrependemo-nos de não ter assumido mais riscos e de não ter sido mais autênticos, ou seja, sermos nós próprios. Eu tento, para quando chegar esse momento – espero que seja daqui a muitos anos [risos] –, não me arrepender. Espero ter assumido riscos suficientes e de não ter ficado amarrado às minhas próprias barreiras.

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