Os dados no centro da equação

O sector dos seguros está hoje exposto, tantoa novos intervenientes, capazes de criar rapidamente modelos inovadores, muitas vezes baseados na análise de dados, como à introdução súbita de novos hábitos, criados pela mobilidade e por clientes em busca de ofertas mais simples, mais transparentes, lúdicas e colaborativas.

por Christophe Antone – Digital Director da MDS

Não passa um dia sem que seja publicada uma nova notícia ou artigo sobre a era digital. O mundo dos seguros parece destinado a passar por uma nova fase disruptiva, cujos contornos temos dificuldade em antecipar, dado vivermos num ambiente complexo e em perpétua aceleração. Se durante as primeiras décadas o sector ainda estava protegido pelo custo de acesso às tecnologias – o que limitava o número de participantes –, actualmente está exposto, tanto a novos intervenientes, capazes de criar rapidamente modelos inovadores, muitas vezes baseados na análise de dados, como à introdução súbita de novos hábitos, criados pela mobilidade e por clientes em busca de ofertas mais simples, mais transparentes, lúdicas e colaborativas.

No seio de instituições, por vezes seculares, que finalmente conseguiram absorver a revolução da internet, alguns poderiam pensar que esta nova era digital, tal como a que a precedeu e que nos prometiam vir a ser apocalíptica, também se poderia assimilar sem grandes complicações. Isso seria confundir a tecnologia com as suas possíveis utilizações. Muitas vezes, é mais fácil controlar uma tecnologia do que a utilização que se faz dela, já que esta acaba geralmente por escapar ao controlo do seu criador.

MUDANÇA DE PARADIGMA
Terá sido a tecnologia das máquinas a vapor a mudar as sociedades modernas do século XIX, ou terão sido as locomotivas que criaram novos comportamentos ao percorrerem o mundo e ao deslocarem pessoas e mercadorias rapidamente? Terá sido a electricidade a levar ao aparecimento de uma nova sociedade, ou terá sido a produção industrial das lâmpadas incandescentes por Edison e Swan e as utilizações que delas se fizeram? A invenção e a comercialização destas lâmpadas tiveram um impacto considerável no mundo: permitiram prolongar os horários de trabalho em fábricas iluminadas, reduzir os acidentes e aumentar a produção; reduziram os riscos de incêndio ao substituírem as velas nas habitações, servindo também para iluminar as cidades e os divertimentos nocturnos.

Tal como o acesso à electricidade no passado, o acesso à internet em qualquer local é hoje uma evidência que ninguém questiona. É a tecnologia base, a infra-estrutura que permite que se criem, de forma exponencial, novas interacções. Poderá dizer-se que o “digital” está para a internet como a lâmpada esteve para a electricidade: uma mudança de paradigma. A sua parte visível, a explosão das novas formas de consumir informação destinadas ao público em geral, está relacionada com o registo massivo de dados em tempo real, com a medição do desempenho, com o ajuste da oferta e da procura, com a monitorização dos indicadores médicos e com a recolha permanente de um número crescente de informações de todo o género. A base da revolução digital é a banalização da recolha, do arquivamento e depois o tratamento das informações de todo o género, mais conhecida pelo nome Big data.

Para se convencer da mudança de dimensão, basta voltarmos um pouco atrás e recordar que, não há muito tempo, o byte foi a primeira medida das quantidades trocadas através dos nossos antigos modems. Depois passámos para o kilobyte com os nossos primeiros microcomputadores; de seguida chegou rapidamente o megabyte, assinalando o aparecimento de conteúdos mais ricos, com base em imagens. Com o novo milénio apareceram os gigabytes, simbolizando a generalização dos conteúdos de vídeo. Hoje em dia, o terabyte corresponde à capacidade básica dos discos duros externos à venda nas lojas. O petabyte é uma nova dimensão, que evoca já gigantescas massas de informação armazenadas nos centros de dados, também chamados de centros de megadados, para reforçar o facto de que estamos perante noções que ultrapassam as nossas capacidades cognitivas. A quantidade de dados trocados entre máquinas (M2M: Machine-to  Machine) não pára de aumentar. A título de exemplo, as cidades inteligentes, as famosas smart cities, vão gerar, segundo a Juniper Research, cerca de 160 petabytes de dados através dos captadores urbanos.

Estima-se que os veículos conectados deverão gerar mais de 7000 petabytes de dados, estabelecendo novas bases para criar novas formas de seguros baseadas numa avaliação de riscos pormenorizada. Uma simples pesquisa na internet, um simples pagamento online, uma simples fotografia publicada, um simples jogging com o relógio conectado, uma simples deslocação de carro, geram uma quantidade de dados verdadeiramente astronómica. Todos os objectos conectados têm capacidade para produzir dados utilizados para fins conhecidos e por descobrir. A ideia da Internet Of Things (Iot) não diz respeito apenas ao seu frigorífico ou ao seu automóvel, engloba também os seres vivos conectados: o seu animal de estimação, uma manada de vacas ou um humano que disponham de determinado dispositivo conectado, tal como uma peça de vestuário inteligente, um chip de RFID, uma prótese médica… Hoje em dia, a humanidade produz mais informações em dois dias do que as que produziu ao longo dos últimos dois milhões de anos. O Facebook, por si só, gera quatro petabytes de novos dados por dia (fonte: Facebook research), ou seja, 13,5 vezes a quantidade dedados que os humanos produzem por dia, oralmente, em todo o mundo. O ruído digital e o das máquinas conectadas entre elas ultrapassa actualmente o barulho emitido pelos homens que as conceberam. É esta a aceleração em que estamos envolvidos e cujas consequências directas ou indirectas afectam todos os sectores. Por isso, é importante identificar as oportunidades e os riscos que daí decorrem, colocando questões que acabam por ser mais filosóficas do que técnicas sobre o sentido das nossas escolhas estratégicas e sobre o ADN das nossas empresas.

ERA DOS ZETABYTES E YOTTABYTES
Enquanto evocamos já o zetabyte e o yottabyte como as próximas fronteiras do inteligível, parece que estamos apenas a descobrir uma nova era de ultra-informação armazenada em gigantescos data centres, cuja factura energética se eleva já a 7% do consumo de electricidade mundial, segundo um relatório da Greenpeace (2017). Continuaremos – muitas vezes sem nos apercebermos – a produzir uma variedade de informações, cuja exploração industrial revela dimensões que teriam ficado ocultas sem o recurso à Inteligência Artificial (IA). Se antes da revolução digital, para ensinar um computador era preciso programá-lo, actualmente existe uma tal quantidade de dados disponíveis sobre uma tão grande variedade de assuntos que os programas podem “simplesmente” aprender através do exemplo e extrair estruturas de informação coerentes do Big data.

A IA permite avanços significativos onde os processos cognitivos humanos são limitados face à quantidade e à frequência de actualizações das informações a tratar. Domínios profissionais em que os dados alimentam fortemente a actividade, como é o caso dos seguros, do direito, da saúde, são especialmente atingidos por estas inovações.

Em matéria de saúde, por exemplo, a IA é capaz de armazenar, compreender e cruzar volumes de informação consideráveis graças às tecnologias de machine learning. Se é verdade que a quantidade de dados médicos disponível duplica a cada três anos, é certo também que as IA podem tratar facilmente os 700 mil artigos médicos publicados todos os anos, o que seria impossível para um cérebro humano. As bases são constituídas não apenas por dados estruturados quantificados, mas também por dados não estruturados, como é o caso do célebre Watson da IBM ou do DeepMind da Google, que recolhem qualquer informação útil da internet. A oportunidade reside no facto de estas técnicas serem susceptíveis, a curto prazo, de ajudar os médicos a encontrarem o tratamento mais apropriado para tratar os seus pacientes, ou para optimizarem os diagnósticos com imagens médicas a partir de um oceano de dados gerais, mas também pessoais. O risco para as empresas europeias abrangidas pelo Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados (RGDP) seria o de subestimar o esforço de adaptação dos seus processos de recolha, de integração, de certificação, de publicação, de supervisão e de protecção de todos os seus dados relativos às pessoas.

Independentemente dos efeitos da mediatização, os grandes conglomerados privados (GAFA: Google, Apple, Facebook, Amazon) parecem, ainda assim, muito avançados, porque são os únicos a dispor de tantos dados e, sobretudo, de meios para se posicionarem nestes domínios altamente estratégicos. Apoiam-se na IA para desenvolver ofertas personalizadas, como a Amazon está a fazer nos seguros, graças à análise dos dados dos seus utilizadores, de entre os quais 18% dizem estar prontos para subscrever um seguro. Desde 2013, o site retalhista disponibiliza os seus serviços à seguradora Allianz France para a gestão dos sinistros, oferecendo aos segurados no seu portal uma substituição de novo ou usado. Em vez da transferência de dinheiro, o segurado recebe um código promocional para adquirir os bens que pretende. Na verdade, a Amazon permite constituir um referencial de preços por família de bens, graças a 250 milhões de produtos presentes na sua base de dados. Correndo o risco de decepcionar os seguradores tradicionais, a Amazon certamente não se contentará em apenas associar o seguro clássico aos produtos vendidos online e o seu modelo económico poderá certamente incluir serviços adicionais, com o intuito de melhorar a experiência do cliente e emitir recomendações personalizadas. No entanto, há algo que lhe vai continuar a faltar: conhecer face a face o seu cliente!

Artigo publicado na revista Risco n.º 9 de Verão de 2018.

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