«Para ser empresário é necessária uma elevada predisposição ao risco»

Apaixonado pelo empreendedorismo e gestor de sucesso, Adelino Costa Matos, o mais novo dos três filhos de Adelino Silva Matos, fundador do grupo metalomecânico A. Silva Matos (ASM), de Sever do Vouga, hoje composto por mais de 20 empresas e com cerca de 400 pessoas, é um exemplo da nova geração de empresários em Portugal. (Reedição do artigo da Risco de Outono de 2018)

Começou em 2004 como estagiário no Grupo A. Silva Matos e três anos depois levou o grupo, que então produzia equipamentos para petróleo e gás, a arriscar forte na diversificação da sua actividade, investindo nas energias renováveis. Adelino Costa Matos é agora o Chairman e CEO da ASM Industries, a subholding do Grupo A. Silva Matos, que está entre os 10 maiores fabricantes europeus de grandes torres e fundações eólicas. Da produção feita anualmente, 95% é para exportação.

Adelino Costa Matos, fã de Jack Welch, considera que o risco faz parte de qualquer actividade, em particular a empresarial, e assume que, para «ser empresário, é necessária uma elevada predisposição ao risco».

Mas além do gosto pela gestão empresarial, Adelino Costa Matos é um apaixonado pelo empreendedorismo associativo e é por isso que, desde Janeiro de 2017, é presidente da direcção da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), liderança que assumiu depois de quatro anos como membro da direcção nacional. Cargo este que acumula ainda com o de board member da fundação Mão Amiga.

Nascido na década de 80, influenciado por isso pelo rock-FM-alternativo, gosta de Nirvana, Red Hot Chili Peppers e Pearl Jam, e, apesar das horas que a gestão e o dirigismo associativo lhe ocupam todos os dias, Adelino Costa Matos ainda encontra tempo para a família – é casado e pai de dois filhos, Madalena e Manuel – e para usufruir da sua colecção de carros antigos.

O que é para si o risco?

O risco é um factor inerente a qualquer actividade, nomeadamente empresarial, que, por natureza, implica incerteza ou exposição a factores que não controlamos na totalidade. Neste sentido, uma das principais características de um empresário/ gestor moderno de sucesso tem necessariamente de ser a apetência para a gestão do risco, de forma a diminuir o grau de imprevisibilidade das variáveis.

Qual a actividade mais arriscada no mundo dos negócios?

Por natureza, a de investir. Aplicar capitais envolve sempre um determinado risco (variável em função dos montantes investidos), normalmente de negócio e financeiro, que a taxa de retorno tem que cobrir.

Os portugueses são avessos ao risco?

Historicamente, os portugueses não são avessos ao risco. Basta lembrar a coragem e tenacidade demonstradas em diferentes momentos da História do País, desde a defesa da independência à expansão marítima, sem esquecer as várias vagas de emigração ao longo dos tempos.

Porém, várias circunstâncias históricas (industrialização tardia, regimes iliberais, défice educativo, posição periférica, etc.) retardaram o desenvolvimento da iniciativa privada, a liberalização da economia e a construção de uma sociedade mais empreendedora em Portugal.

Mas, desde o 25 de Abril, com os grandes investimentos industriais, e nas novas gerações, especialmente nas vertentes digital e de serviços, há uma maior apetência pelo empreendedorismo, sendo que o risco empresarial tende a ser assumido com mais efectividade.

E os bancos portugueses?

Os bancos portugueses continuam num processo de desalavancagem, motivado ainda pela última crise financeira internacional. Esta desalavancagem introduziu uma maior racionalidade na gestão dos bancos, mas teve como efeitos colaterais uma retracção abrupta da concessão de crédito às empresas e um aumento dos custos de financiamento.

O nível de financiamento às empresas pela banca está, contudo, a melhorar e, considerando a estabilidade na Zona Euro, tenho a esperança que a breve trecho se sinta ainda mais essa abertura.

Por que não há em Portugal mais capital de risco?

A evolução do capital de risco tem acompanhado a evolução do empreendedorismo em Portugal, que só nos últimos anos conheceu verdadeiramente um boom na vertente digital. Obviamente que a crise que o País enfrentou levou à rarefacção do capital disponível e à redução do investimento estrangeiro, com consequências negativas na actividade de venture capital.

Com a recuperação económica do País e a estabilização do sistema financeiro europeu, estamos a assistir a um maior dinamismo na actividade de capital de risco orientada para investimentos nas primeiras fases do ciclo de vida das empresas (early stage). Importa, contudo, que haja também um aumento do volume de fundos de capital de risco destinados a startups em fase de crescimento e a PME inovadoras.

Qual foi a decisão mais arriscada que teve de tomar na vida?

Não gosto de gerir as minhas decisões por terem sido muito ou pouco arriscadas, pois os resultados por vezes demonstram o contrário. Acima de tudo, a tomada de decisão onde existe risco deve ser equilibrada com outros factores que dominamos. Ou seja, nesse contexto diria que a decisão de ser empresário acabou por ser o que considero como a componente da minha vida mais arriscada, pela exposição constante e acumulada que existe.

Sem dúvida que, para se ser empresário, nomeadamente numa área industrial, é necessária uma elevada predisposição ao risco.

E no mundo dos negócios?

A entrada da ASM Industries, subholding do Grupo A. Silva Matos, na área do eólico offshore foi uma decisão que não descreveria como arriscada, mas seguramente audaciosa. Foi a aposta num sector, que, apesar das suas reconhecidas potencialidades, é uma área de negócios nova, claramente orientada para o mercado externo, e que exige muito know- -how, inovação e tecnologia.

Já se arrependeu de não ter arriscado?

Algumas vezes, pois este é um facto inerente a julgarmos as nossas decisões a posteriori, momento em que já não existe risco na análise. É fácil arrependermo-nos de não termos apostado no resultado de um jogo, depois de este acabar.

in Revista Risco nº 10 (outono 2018)

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